Maniqueu,
também conhecido por Mani ou manes, viveu na Pérsia, no século III da era
cristã. Dizia-se o enviado de Deus para completar a obra de Cristo. Sua
doutrina, chamada de maniqueísmo, misturava elementos de várias religiões
orientais, mas principalmente do zoroastrismo, antiga religião persa, e do
cristianismo.
Maniqueu
pregava, que desde toda a eternidade, existem dois princípios fundamentais, o
bem e o mal. O primeiro, que se chama Deus, representa o reino da luz, e Ele
mesmo é pura luz, que só a razão e não os sentidos pode perceber. O segundo
chama-se Satanás, rei das trevas é o mal absoluto, pois é a pura matéria.
Quanto
aos outros seres, são bons ou maus segundo sua origem: os que têm a luz por
princípio, são bons, enquanto os maus têm as trevas como origem.
Satanás
criou o primeiro homem e deu a este partículas de luminosidade divina, roubadas
durante a luta entre os reinos da luz e das trevas. Estas partículas seriam as
almas dos homens. Estes, por sua vez, seriam compostos de três partes: de um
corpo, oriundo do mal (Satanás), de um espírito oriundo de Deus, e de uma alma
cheia de maus desejos e dominada por Satanás 1.
Os
maniqueístas tinham por finalidade a libertação da alma, do domínio da matéria.
Para tanto, castigavam o corpo e evitavam, o quanto possível, o contato com a
matéria. Por isso, valorizavam o jejum, a ausência de símbolos materiais
externos, o celibato e a abstinência sexual.
A
crença numa visão dualista do mundo, segundo a qual o mundo é dominado por duas
forças antagônicas: de um lado o bem absoluto, representado por Deus, de outro,
o mal absoluto, representado pelo Diabo, é anterior a própria doutrina de
Maniqueu, embora este dualismo, por extensão, seja conhecido por maniqueísmo.
E podemos dizer, sem dúvida alguma, que esta já se encontrava nas crenças mais
antigas, assim como podemos encontrá-la nas mais modernas. Ex 2:
Zoroastrismo – Princípio do Bem:
Ahura Mazda / Princípio do Mal: Angra Mainyu.
Judaísmo – Princípio do Bem: YHWH
/ Elohim / Princípio do Mal: Samael.
Cristianismo – Princípio do Bem:
Jeová / Javé / Princípio do Mal: Lúcifer / Satanás.
O
dualismo maniqueísta, entre espírito (o bem) e matéria (o mal), influiu
profundamente na origem da moral e das religiões. Para tanto, basta examinarmos
o mito bíblico da origem do pecado: o Diabo em forma de serpente seduz Eva com
o fruto proibido. A forma de serpente, escolhida para representar o diabo, não
é à-toa. Já que este símbolo nos permite associar o mal, ao sexo e a matéria.
Pois, a serpente, além de ter uma forma fálica, isto é, em forma de pênis,
fazendo uma alusão indireta ao sexo, também se assemelha a um verme, ser
desprovido de membros. E qual ser manteria o maior contato com a matéria? O
verme, este ser sem membros que se arrasta sobre a maldita matéria. Mantendo,
desta forma, uma posição inferior e humilhante, com esta. E até hoje em dia,
esta associação maniqueísta continua de forma inconsciente, pois quando
queremos ofender alguém usamos este termo, verme, como um dos prediletos.
Assim, os termos, verme e inferior, neste contexto, da mesma forma que “anjo
caído”, “rebaixar-se”, “rastejar-se”, ou “a queda de Adão e Eva do paraíso”, ou
outra palavra ou frase qualquer, tendo como sentido, o chão, a matéria, teriam
o mesmo sentido. Todas teriam um sentido pejorativo. Aliás, as palavras
inferior e inferno possuem a mesma origem: ambas vem do latim, infernus =
inferior, que significa, o que fica embaixo. Deste modo, podemos ver claramente
o porquê do sexo e da mulher terem sido considerados antes (e ainda hoje) como
coisas do Diabo, fazendo com que esta demonstrasse com orgulho o fruto do seu
ventre e escondesse com vergonha a origem deste. O que nos leva, por sua vez, a
compreender que uma virgem tenha gerado Cristo, e que a virgindade desta seja
tão cultuada, até hoje em
dia. Seja como for, após terem comido o fruto proibido (dado
pela serpente), Adão e Eva tiveram filhos.
O
Orfismo, antiga crença religiosa grega, também possuía um lado dualista
maniqueísta, este pregava a necessidade de reprimir a natureza terrena do homem
e de cultivar a sua natureza divina. O filósofo grego Platão (427 a .C. – 347 a .C.) sofreu forte
influência do orfismo, tanto que sua idéia de justiça baseava-se inteiramente
nas idéias deste culto. A idéia platônica de justiça é uma idéia moral que
afirma a necessidade da razão de dominar e controlar, por completo, o lado
irracional: os sentimentos, as emoções, os impulsos sexuais, etc. E por quê?
Porque a razão seria a parte melhor, a parte superior de nós, e por isso
deveria dominar a parte inferior e pior, ligada aos desejos terrenos e bestiais
do corpo. Esta idéia de justiça, Platão aplicou à sociedade. Deste modo, uma
sociedade justa seria aquela em que as classes sociais se relacionariam como na
moral. Assim, tal qual no indivíduo, em que o superior, a razão, deve dominar o
inferior, os instintos. A sociedade justa deveria criar meios, pelo qual a classe
econômica mais inferior, pudesse ser dominada e controlada pela classe
imediatamente superior a essa, afim de que as riquezas não provocassem egoísmo
e guerras. Esta tarefa era dada a classe dos guerreiros, que por sua vez,
deveria ser dominada e controlada, pela classe política. Esta, sendo superior,
deveria impedir que os guerreiros, usando a força pudessem dominar a sociedade.
A classe política, enfim, seria dominada e controlada pela classe dos sábios,
estes representando a razão suprema, impediriam que os políticos abusassem do
poder e se voltassem contra a sociedade.
E
assim como o orfismo, com seu dualismo maniqueísta deturpa a natureza humana,
tornando-a dividida e odiada por si própria. A ponto do filósofo Plotino (204 –
269) sentir vergonha de estar num corpo. A idéia platônica de justiça, fruto da
deturpação da natureza humana feita pelo orfismo, destrói a própria idéia de
justiça, já que conceber classes superiores a outras, ou necessitar de dominar
e controlar estas, me parece à suprema injustiça. E apenas alguém que estivesse
na classe mais alta, poderia concordar plenamente com isto.
Platão,
assim explica, em forma de mito e com analogias, as diferenças sociais: "São todos irmãos os que fazem parte do
Estado; mas o Deus que lhes criaram fez entrar o ouro na composição dos que são
aptos para governar. Por isso mesmo os tais são mais preciosos. Misturou prata
na constituição dos guerreiros; o ferro e o cobre na dos lavradores e
artesões" (República 415 a ).
Esta
forma de pensamento ainda hoje a encontramos, embutida na distribuição de
renda. Aqueles que trabalham diretamente com objetos materiais, privilegiando a
inferior matéria, tais como: garis, artesãos, lavradores, mecânicos, etc. São
os que possuem a menor renda. Enquanto, os que privilegiam o lado superior, o
lado intelectual: engenheiros, arquitetos, políticos, etc, são em geral, os que
possuem a maior.
De
modo geral, podemos dizer que o ódio ao material se traduz como ódio ao carnal,
como ódio à vida. E que tal pensamento, já estava contido na forma de
interpretação dada pelo antropomorfismo, pois, ao conceberem que todas as
coisas da natureza foram feitas para os homens, estes não poderiam deixar de se
sentir, como seres especiais, como os únicos seres superiores da natureza. No
entanto, não poderiam deixar de observar, por sua vez, que possuíam qualidades ou
atributos em comum com outros animais, ditos inferiores, tais como, o sexo. E
ao perceberem, em si próprios, esta dualidade fundamental, esta oposição entre
o lado superior do homem e o seu lado inferior de animal. E uma vez, tendo eles
presenciados, que na natureza não há apenas coisas boas, mas também más, como
os terremotos, as doenças, as tempestades, etc. Foram levados a atribuir as
qualidades opostas, bem e mal, a Deus ou aos Deuses. E assim, passaram a
conceber o bem e o mal, como exteriores a si próprios. Porém, como eram eles os
escolhidos, deveriam ter algumas qualidades superiores, de origem divina, que
os pobres animais não teriam. Assim, foram levados a cultuar todas as
qualidades que não eram animais, e a detestar as que tinham esta, como origem.
Deste
modo, não é de surpreender que o sexo tenha sido o alvo preferido. Pois de
todas as nossas qualidades, talvez esta seja, direta ou indiretamente, a que
compartilhamos com todas as formas de vida.
Assim,
passaram a padronizar os comportamentos. A ditar, o certo e o errado. Tanto,
que a doutrina católica, passou a classificar os tipos de coito. Aos que
achavam indignos do homem, deram o nome, “coitus more canino”3, isto
é, coito ao modo dos cães, às formas de relação sexual, em que lembram os animais,
de quatro. A esta tarefa foi encarregado o tribunal da Santa Inquisição. Este
tinha como finalidade, julgar e condenar à morte, na fogueira, todos aqueles
que não concordavam com o tipo de separação entre o bem e o mal, proposta pela
igreja. A inquisição católica foi um dos maiores exemplos de intolerância que
se tem notícia. Por ela, foram condenados a morte, milhares de pessoas, pelo
simples fato de pensarem diferente, de terem diferentes cultos, de se
comportarem de modos diferentes, etc.
Vale
também notar, que tal pensamento ainda hoje possue uma forte influência em
nossas vidas. Ele está presente, na luta entre o bem e o mal, dos filmes, dos
games, das novelas, dos personagens de revista em quadrinhos, etc.
Ele
nos leva, desde cedo, a dividirmos o mundo entre bem e mal, como se tal divisão
fosse possível. Logo, este pensamento se multiplica numa variedade de
preconceitos. Acreditamos firmemente que nós somos o bem, enquanto o mal são os
outros. Pois, temos meios suficientes para justificarmos nossos motivos e
crenças, nem que seja por meio do simples egoísmo ou a força. E assim,
estigmatizamos como maus, como errados, como inferiores, povos, culturas, que
mal compreendemos, pelo simples fato de serem diferentes.
De
um modo geral, o pensamento maniqueísta ganhou uma forma nova. Ao definir
aquelas pessoas ou tipos de pensamentos, que classificam os fatos sob uma
dualidade oposta irreconciliável. Reduzindo a vida a oposições do tipo: direita
/ esquerda, branco / negro, desenvolvido / sub-desenvolvido, ocidente /
oriente, raça superior / raça inferior, etc. E o que tem de comum com a forma
antiga é que um lado deve destruir o outro, pois um é luz e o outro é trevas.
O
pensamento maniqueísta, tanto no formato religioso, quanto na forma nova,
deturpa a realidade, criando uma realidade que não existe. Pois, não existe uma
linha divisória entre o bem e o mal, que nos possibilitasse diferenciar um do
outro, claramente como quem diferencia um rato de um elefante.
O
mundo não é tão simples assim. O que nos parece como o mal, em um primeiro
momento, pode se revelar como o bem, e vice-versa.
Ao
tentar classificar as pessoas como boas ou más, no fim descobrimos, que todas
parecem ter um lado bom e um lado mau. Que o pior sujeito, em meio a tantos
defeitos, pode ser um bom pai, um bom amigo, etc.
O
pensamento maniqueísta, não possibilita a harmonia. Aquele que só consegue ver
o mundo pelos óculos do bem e do mal, ou por outro par de opostos qualquer, não
consegue dialogar, enfim se entender. Assim foi no passado, permanece no
presente e provavelmente prosseguirá no futuro. Pelo menos, enquanto este
pensamento se manter vivo.
Além
disso, o bem e o mal dependem de quem julga. Os Palestinos são vistos como um
mal para os judeus, assim como estes eram para os nazistas.
De
fato, jamais houve uma guerra que não tenha sido feita em nome do que se acha
correto, certo, ou do bem. Pelo menos para um dos lados. E qual dos lados
estaria correto? Qual o critério para classificar o lado do bem? Estas
respostas, verdadeiramente o maniqueísmo não pode nos dar, pelo menos de modo
honesto, isto é, isento de racismo, de preconceitos, ou de outro interesse
qualquer.
Santo
Agostinho (354-430) que durante um certo período de sua vida foi maniqueísta,
após ter deixado tal crença, relatou que jamais tinha encontrado paz em tal doutrina.
Pudera! Estando a todo o momento cercado de oposições e mergulhado até a alma
na guerra contra o mal, como pregava tal doutrina. Enfim, alcançou a paz ao
descobrir que o mal, como oposição ao bem, não existe, e sim que o mal é apenas
a ausência do bem. Portanto, não existiria para Agostinho, como queriam os
maniqueístas, dois princípios poderosos e simultâneos a dominar o mundo: o bem
e o mal, mas tão-somente Deus, infinitamente bom.
Em
suma, o grande erro do maniqueísmo é não perceber que a oposição entre o bem e
o mal não existe, que tal oposição surge de um acordo de palavras ou de
elementos mal definidos. Se, por exemplo, chamarmos o mal de ausência de bem, o
que de fato o é, como faz Santo Agostinho, tal oposição desaparece, já que para
haver oposição é necessário que os dois elementos existam ao mesmo tempo, coisa
que não acontece com o bem e a ausência de bem. O mesmo se dá com a luz e a
escuridão. Se chamarmos a escuridão de ausência de luz, fica claro que a
oposição entre luz e trevas, não poderá existir, já que como é dito um é a
ausência do outro. E, portanto, esta oposição seria apenas simbólica, não
existindo verdadeiramente. O que nos possibilitaria até a conceber o bem como
ausência do mal, sem nenhum prejuízo. O que demonstraria, por sua vez, a origem
errônea do dualismo maniqueísta.
Por
outro lado, embora o maniqueísmo de modo errôneo reprima a natureza terrena do
homem e cultive apenas sua natureza divina, concebendo em nós como o mal, o que
é em nós, extremamente natural e necessário, como os instintos. Torna-se
necessário reprimi-los com leis, que limite nosso natural egoísmo e sadismo. E
que torne possível a vida em sociedade. Pois, como vemos nas guerras, ao
afrouxar as leis da boa convivência, damos evasão ao nosso egoísmo e sadismo
extremos. Contudo, o homem não apenas é capaz da mais alta crueldade, como da
mais extrema bondade. Embora esta seja muito mais a exceção que a regra. Somos
equipados pela natureza de sentimentos extremamente úteis à vida, sem os quais
seria impossível viver. O primeiro mandamento da vida é viver e viver implica
em se manter vivo. O que implica uma dose de egoísmo em bem viver, ou em
manter-se vivo. Por isso, não é de estranhar que o egoísmo seja a causa da
maioria dos crimes e que a virtude seja tão rara. Pois, é muito mais difícil
pensar no outro, do que em si próprio.
O
bem e o mal na natureza não existem. O que chamamos de mal, na natureza é um
fator extremamente importante para o seu funcionamento. A morte, por exemplo, é
extremamente importante à vida, pois sem aquela a vida não existiria: a morte
alimenta a vida. Portanto, o bem e o mal dependem do homem.
Assim,
do mesmo modo, que Santo Agostinho, ao descobrir que o mal em relação ao bem
não existe, podemos descobrir que o bem e o mal, só existem no homem. O mal,
como egoísmo, como ignorância. E o bem, como harmonia.
FONTES:
1.
Tirado da nota 104 das CONFISSÕES – Santo Agostinho/Coleção Os Pensadores -
Nova Cultural
2.
www.xr.pro.br/ensaios: maniqueísmo
3.
Dicionário da Vida Sexual/Volume 2


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