Em
2008, na cidade russa de Yaroslavl, a polícia prendeu oito jovens acusados de
matarem, esquartejarem e devorarem quatro outros com idades entre 17 e 19 anos.
Um fato chamou a atenção das autoridades do lugar: todos tinham sido mortos com
666 golpes de faca. O que levou a polícia imediatamente a deduzir que se
tratava de um ritual satânico.
Mas
o que tal número teria haver com satanismo? Seria mesmo um número maldito ao
ponto de gerar fobia em muitos e um esdrúxulo nome, proporcional ao seu
terrível mistério: Hexacosioihexecontahexafobia?
É
o que pretende responder o BORNAL em mais uma investigação, seguindo o método
investigativo: colhendo evidências na tentativa de responder perguntas simples
sobre grandes mistérios, até sua solução; destruindo, assim, falsos mitos que
amedrontam os homens.
COMEÇAMOS NOSSA INVESTIGAÇÃO notando inicialmente que, ao contrário do caso de Yaroslavl, o número 666 também aparece, de modo ingênuo, associado a fatos corriqueiros de nosso dia a dia: “ Encontraram o número, por exemplo, na frase ‘Viva, Viva, Viva a Sociedade Alternativa’, da música do roqueiro Raul Seixas, onde transformaram a sílaba VI em algarismo romano (VI = 6). Então o VIva VIva VIva, virou 6 6 6. ‘Marquei um X, um X, um X no seu coração’ da cantora Xuxa também se enquadraria na famosa continha. Segundo dizem a letra X pronunciada em português seria XIS, lendo de trás para frente vira SIX que em inglês é 6. Então SIX, SIX, SIX = 666.”10
MAS
DE ONDE TERIA VINDO O FUNDAMENTO PARA TAL MEDO? Esta pergunta nos leva
imediatamente ao mais famoso livro, de todos os tempos: A Bíblia.
No
livro apocalipse é dito: “Aquele que tem entendimento, calcule o número da
besta; porque é o número de um homem, e o seu número é 666”.
No
livro bíblico, a Besta é um personagem misterioso associado a destruição e a
maldade; consequentemente seu número também.
MAS
TERIA ESSE NÚMERO UM SIGNIFICADO ANTERIOR A ESTA INTERPRETAÇÃO?
Notamos
que sim. Ele aparece pela primeira vez na bíblia em um livro bem mais antigo
que o Apocalipse, no encontro entre o rei Salomão e a rainha de Sabat:
“Ora,
o peso do ouro que se trazia a Salomão cada ano era de 666 talentos de ouro”. 1
Reis 10 – 14.
Isto
nos leva a mais uma indagação: A ASSOCIAÇÃO ENTRE O NÚMERO 666 E O OURO, TERIA
ALGUM SIGNIFICADO A MAIS?
Sim.
Nesta frase, a associação entre o número 666 ao elemento ouro, não é à toa. O
ouro, por sua cor e seu brilho, sempre foi associado ao sol. Aqui, começa a ser
desvendado o verdadeiro significado do número 666.
Na
Kabbalah, que é uma antiquíssima forma de conhecimento judaico, e rica de simbolismos,
todos os corpos celestes, possuem um elemento chamado “quadrado mágico”5,
associado a eles, divididos em tantos quadrados internos de acordo com a
propriedade de cada elemento representado. Deste modo, Saturno é representado
por um quadrado dividido em 3x3, quadrados internos, Júpiter em 4x4, Marte 5x5,
e assim por diante.
Estes
quadrados possuem números, inscritos nos quadrados internos, que vão do número
1 ao número que corresponde ao número total de quadrados internos. Todos os
quadrados mágicos possuem seus números ordenados, de tal modo, que todas as
somas dos números em colunas, linhas e, mesmo, em diagonais centrais, teriam o
mesmo resultado. Além disso, cada corpo celeste teria um número sagrado,
relacionado com tais quadrados. Estes números seria o resultado da soma de
todos os números pertencentes aos seus respectivos quadrados mágicos. Assim, por exemplo, saturno seria representado
pelo quadrado mágico:
Note
que a soma dos três números, tomados tanto em horizontal quanto vertical, ou mesmo
em suas diagonais, sempre é igual a 15. Sendo o número sagrado de Saturno o
número 45, isto é, 1+2+3+4+5+6+7+8+9 = 45.
O
sol seria representado pelo quadrado mágico:
Note,
também, que as mesmas propriedades podem ser conseguidas com o quadrado mágico
do sol. E se você somar todos os números contidos em seu quadrado mágico obterá
seu número sagrado, isto é, 1+2+3+... 34+35+36 será o famoso, e “terrível”,
número 666. Portanto, O NÚMERO 666, TAL QUAL O OURO, REPRESENTARIA TAMBÉM O
SOL.
Tem
sido assim, a milhares de anos anterior ao Livro do Apocalipse ter sido
escrito. Com o número 666 representando um elemento sagrado para a antiquíssima
cultura judaica, Kabbalah: O Sol.
O
sol para a Kabbalah, assim como para tantas outras culturas antigas, representaria
a iluminação e todos os seres iluminados, o mais alto grau de consciência e
sabedoria que um ser poderia alcançar. Portanto, não seria à toa sua associação
com um dos símbolos máximos de sabedoria da bíblia, o rei Salomão.
MAS
SE O SOL SIMBOLIZA TODOS OS SERES ILUMINADOS PORQUE ENTÃO SEU NÚMERO APARECE
ASSOCIADO A ALGO TÃO RUIM E DEMONÍACO QUANTO A BESTA?
“Sei que a lavagem cerebral da mídia faz com
que vocês acreditem que o número 666 foi associado ao diabo e ao fim do mundo
desde sempre, mas é muito importante lembrar que, antes de Gutemberg, em 1456,
simplesmente não existiam exemplares da bíblia que não fossem copiados à mão
por monges e mantidos trancados à sete chaves dentro das Ordens Iniciáticas e
da Igreja (assistam ao filme ‘O Nome da Rosa’), ou seja, NADA de conhecimento
deste número por parte da população.”
“MESMO
depois de Gutemberg, a bíblia ainda era um item extremamente raro e caro de se
obter. [...]. Ao contrário do imaginário popular, o povão só tomou realmente
conhecimento do conteúdo da bíblia depois da metade do século XIX. Bíblias
dentro de casa só se tornam uma realidade depois da metade do século XX.”
Contudo,
embora o “povão” não tivesse conhecimento direto do conteúdo da Bíblia, havia
toda uma tradição religiosa paralela a tais textos, como as ligadas aos livros
de Enoque, como já foi visto, sobre a queda dos anjos, e embora alguns autores
a tivesse substituído por uma versão cristã, a antiga, ainda, resistia ao lado
da nova. E como era de se esperar, não demorou para que as duas se misturassem.
Assim, “relações sexuais de anjos com humanos saíram de um passado longínquo de
Enoque e passaram para o ‘tempo presente’. Falava-se de Íncubus e Súccubos
[forma de demônios que supostamente manteriam relações sexuais,
respectivamente, com mulheres e homens, encanto dormiam]. Então, como o novo
objetivo do lado negro seria tomar o trono de Deus, nada mais prático do que
criar um novo messias. Assim, já nos primeiros tempos da cristandade, a
profetiza Sibila Tiburtina previa a chegada do Anticristo – que seria de origem
Judia. Entretanto, Santa Hildegarda (1098 – 1179) foi a primeira a dizer que
ele seria filho de ‘um demônio disfarçado de anjo de luz’.”7 Assim dizia ela:
“O
filho de perdição que reinará pouco tempo, virá ao anoitecer da duração do
mundo, no tempo correspondente a esse momento em que o sol desapareceu já no
horizonte, isto é, que virá nos últimos dias. Armai-vos com tempo, e
preparai-vos para o mais terrível de todos os combates. Após haver passado uma
juventude libertina no meio de homens muito perversos e num deserto onde haverá
sido conduzida por um demônio disfarçado de anjo de luz, a mãe do filho de
perdição o conceberá e o aluminará sem conhecer seu pai. O filho de perdição é
essa besta muito malvada, que fará morrer os que recusam crer nele...”8
E
esta tradição, EXTRA BÍBLIA, mantém-se até nossos dias, distorcendo, não
apenas, outras religiões, como os próprios textos bíblicos.
UM
EXEMPLO: A BESTA E O LIVRO DO APOCALIPSE
É
preciso lembrar que, diferentemente de hoje, o ato de escrever e ler, não era
tão acessivo quanto hoje, muito pelo contrário, a escrita e a leitura eram
privilégios de poucos. O conhecimento pertencia a uma pequena camada religiosa.
Por isso, os escribas, eram pessoas que dominavam profundamente o conhecimento
religioso de sua época. E os autores bíblicos não fogem disso. E como era de se
esperar, o autor do Livro do Apocalipse não é exceção à regra. Ele dominava
profundamente o conhecimento judeu da Kabbalah, e, por conseguinte, jamais
daria um sentido maléfico a tal número. Por isso, tal escrito é rico em
simbolismos, e quando não interpretado desta forma torna-se de difícil
entendimento, ou sem sentido, ou, ainda, pior, com um sentido distorcido. Por
isso, Del Debbio nos faz ver que, “com um conhecimento básico de Kabbalah, ao
examinarmos a primeira frase do Livro das revelações, temos9:
‘Aqui
há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é
o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis’
Sabedoria
e Entendimento são as duas esferas mais altas da Kabbalah, Hochma e Binah. A
Besta é Chayah [...], o Abismo que separa o mundo divino do mundo das ilusões
em que vivemos.
O
Chayah é um nível especial de iniciação dentro do Chayoth HaKodesh, que vai
representar a escolha final de um Magister Templi quando ele chega a
iluminação. Portanto é um número humano e ao mesmo tempo divino. O número do
Sol.
As
conexões entre Tiferet [o sol] e Binah/Hochma representam os dois vértices do
“continuum”, ou seja, o começo e o fim, o alfa e o ômega. 666 representa a
pessoa capaz de manipular as emanações divinas e ainda assim permanecer humano
encarnado.”
666
OU 616?
Contudo,
é bem possível que o número 666 seja fruto de interpolação, já que O Codex Ephraemi
Rescriptus, um manuscrito do Séc. V, que comporta quase todo o Novo Testamento,
o qual “trata-se de um palimpsesto, ou seja, um pergaminho que foi raspado para
apagar-se o conteúdo original e possibilitar ser novamente escrito”, concebe o
número da Besta como sendo 616, bem como um pequeno manuscrito antigo
encontrado do Livro do Apocalipse. Não havendo, portanto, unanimidade quanto a
tal número, sendo, bem possível, ser o número 666 o resultado de adulteração de
traduções. O que explicaria, por sua vez, toda a confusão com o sentido
benéfico de tal número. Pois, é sabido que, naquele tempo, o ato de escrever em
cifra ou em código, era bastante comum, consistindo, simplesmente, em atribuir
valores numéricos às letras. O que era facilitado pelo fato das línguas, latim,
hebreu e grego, usarem letras como símbolos de números. E, assim, podia-se
conceber palavras como números e vice-versa. Deste modo, para alguns, por
exemplo, o nome Cristo podia ser interpretado como 888. Todavia, uma mesma
palavra, dependendo do idioma adotado, podia ter valores numéricos diversos.
Assim sendo, para Orígenes, Cristo era representado pelo número 318. Tornando
clara a confusão que daí poderia provir, já que muitas línguas possuíam
alfabetos diferentes. Tanto que do próprio nome de Jesus de Nazaré em hebraico
(YRSN VSY), transpondo para números, pode-se obter 666.
IDENTIFICANDO
A BESTA
Todavia,
não faltaram aqueles que usando do mesmo procedimento, tentaram identificar a
Besta. E assim, por exemplo, incentivados por coincidências numéricas, viram no
Papa a imagem da própria.
“Coincidências”
como as que se obtém ao interpretar os títulos papais como somas de números
romanos. Assim, os títulos “VICARIVS GENERALIS DEI IN TERRIS” (significando
“Vigário-geral de Deus na Terra”), “VICARIVS FILII DEI” (Vigário do Filho de
Deus”) e “DVXCLERI” (“Príncipe do Clero”), possuem todos o resultado 666. Por
exemplo:
VICARIVS
[(V=5)+(I=1)+(C=100)+(I=1)+(V=5) igual 112]
GENERALIS
[(L=50)+(I=1) igual 51]
DEI
[(D=500)+(I=1) igual 501]
IN
[(I=1) igual 1]
TERRIS
[(I=1) igual 1]
Total:
112+51+501+1+1=666
A
DEFINITIVA ASSOCIAÇÃO ENTRE 666 E O DIABO10
Porém,
houve aqueles que se aproveitaram da situação, como o ocultista inglês Aleister
Crowley (1875 – 1947), que, aproveitando-se da liberdade de nosso tempo (antes
seria certamente preso ou morto, pelos fanáticos religiosos), por volta de
1904, se auto-intitulou, com um título em grego, To Mega Therion, ou a Grande
Besta (666).
Certamente
para Crowley, conhecedor como era da cultura esotérica, tal título não tinha
nada de demoníaco, embora fosse extremamente provocativo. E ao ficar conhecido
como grande divulgador da cultura esotérica, de nosso tempo, a igreja não
demorou a demonizá-lo, associando-o, de modo pejorativo, ao Diabo, e, por
extensão, explorando, ao máximo, a associação entre o número 666, a magia e o
anticristo. Tornando, daí adiante, tal associação, extremamente popular,
divulgada, hoje, em música, livros e filmes.
CONCLUSÃO:
Devemos
sempre nos lembrar que não apenas nossos atos possuem conseqüências, como
também nosso modo de pensar. E que um pensamento calgado no medo e na
ignorância não pode nos dar bons frutos. E que o pior medo, é aquele que surge
da ignorância, pois ignorando suas origens, não podemos dominá-lo, porém ele
nos domina. Por isso, desde muito cedo, é sabido: O MELHOR MEIO DE DOMINAR
ALGUÉM É LHE INCUTINDO MEDO. Idéia que sempre foi usada na humanidade e que, em
nós, é incutida desde que somos criancinhas, como forma infeliz de nos
“acalmar” os ânimos, nos impondo medo de um bicho-papão, ou de algo parecido. E
poucas são as fontes tão prodigiosas em medo quanto as religiões.
Assim,
Lúcifer, Satanás, Diabo e etc, surgem como deturpações criadas de deuses, ou
símbolos, pagãos, feitas pela igreja cristã. E o que são tais figuras, além de
uma espécie de bicho-papão que assombrariam nossas mentes, mantendo-nos cativos
de nossa própria ignorância? E, assim, provendo de um gordo dízimo àqueles
interessados em mantê-las, mantendo, deste modo, o medo.
Interpretações
que se arrastaram acumulando erro após erro, continuando, assim, distorcendo
elementos sagrados de outras culturas. Um desses símbolos é o sagrado número
666, que passou a ser associado a algo demoníaco, e a um eventual apocalipse
(fim do mundo). E assim como a palavra apocalipse não tem nada haver com o fim
do mundo, já que esta provém do grego, significando revelação, (apesar de
muitos, ainda hoje, estejam esperando um “apocalipse do mundo”) associaram o
666 a um ser demoníaco, embora este número nada tenha haver com isto., embora
muita gente desconheça isto, e sempre lhe associe seu sentido distorcido, assim
como o associe unicamente ao Livro Apocalipse. Como podemos ver, onde o número
666 aparece pela primeira vez 4:
FONTES:
1.
O Diabo não é tão Feio Quanto se Pinta – I / Marcelo Del Debbio. Ver em:
(http://www.sedentario.org/colunas/teoria-da-conspiracao/o-diabo-nao-e-tao-feio-quanto-se-pinta-i-5334)
2.
Baseado em: Belzebu, Satanás e Lúcifer – Parte II / Marcelo Del Debbio. Ver em:
(http://www.sedentario.org/colunas/teoria-da-conspiracao/belzebu-satanas-e-lucifer-parte-ii-5489)
3.
Idem
4.
Citado em: 666, The Number of The Beast / Marcelo Del Debbio. Ver em:
(http://www.sedentario.org/colunas/teoria-da-conspiracao/666-the-number-of-the-beast-5706)
5.
Idem
6.
Idem
7.
Citado no Zine: Putrefação Agnóstica
8. Idem
9. 666, The Number of The Beast
/ Marcelo Del Debbio
10. Baseado em: 666, The Number
of The Beast / Marcelo Del Debbio






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