Viver,
inevitavelmente, requer que obtenhamos respostas para algumas perguntas de
natureza extremamente práticas e vitais, como onde e como encontrar alimentos,
como evitar acidentes, como obtermos proteção contra as intempéries da
natureza, etc.
E
nessa busca incessante por respostas verdadeiras, a mente humana se depara com
um primeiro obstáculo: a confusão entre CRENÇA e CONHECIMENTO.
Embora
muitas vezes estas ideias se confundam, elas não são, de modo algum, sinônimas.
Ambas possuem origens diferentes.
A
confusão entre CRENÇA e CONHECIMENTO é uma consequência de outra, entre QUERER
e PODER, também bastante popular, que apesar do alerta do ditado, “QUERER NÃO É
PODER”, são incessantemente confundidas, já que tanto CRER quanto QUERER
parecem estarem muito mais ligados a sentimentos, desejos, vontades, do que ao
conhecimento. Enquanto CONHECER e PODER, por sua vez, parecem estarem muito
mais ligados a realidade.
De
fato, para se CRER em algo não é necessário que tenhamos CONHECIMENTO sobre
este algo, muitas vezes basta apenas que este algo nos traga algum benefício
psicológico, ou emocional, para se crer nele, como, por exemplo, na experiência
chamada EFEITO PLACEBO, em que alguns pacientes são enganados, quanto as
propriedades de determinado remédio, isto é, crêem verdadeiramente que estão
tomando determinado remédio, embora estejam tomando apenas bolinhas de trigo,
afim de testar se o suposto efeito saudável de algum medicamento se deve ao
efeito psicológico do paciente, ou, de fato,
a própria eficácia do medicamento. Em muitos casos o efeito saudável tem
apenas origens psicológicas. E assim, tais pacientes passam a crer em tal
medicamento, não por terem o conhecimento que este é verdadeiro, e faz bem, mas
apenas porque houve um efeito benéfico, embora tenha sido apenas psicológico.
Ou
como na crença em Papai Noel:
As
crianças crêem em Papai Noel não por terem conhecimento dele, mas apenas por
confiarem em seus pais, na autoridade do que dizem a respeito do “bom
velhinho”, etc.
Ou,
ainda, como a crença em alguma religião, pois muitas vezes cremos numa
determinada religião apenas porque nossos pais, avós, acreditam nela, isto é,
acreditamos nela apenas por tradição. Assim a crença em tal religião se
assemelha muito ao uso de nossa linguagem, que herdando de nossos familiares,
herdamos apenas por HÁBITO e REPETIÇÃO. Origens que nada têm haver com o
conhecimento. E que, por sua vez, não origina nenhuma forma de conhecimento,
mas apenas crenças sem fundamentos, ou preconceitos.
Portanto,
CRER possui origens diferentes de CONHECER.
Por
outro lado, diferentemente de CRER, CONHECER, requer origens bem diferentes,
como objetividade, imparcialidade, independência com relação a toda tradição
ingenuamente aceita, etc.
ORIGEM
DO CONHECIMENTO
Embora
a inteligência, a razão, sejam qualidades comuns aos homens, nem sempre, porém,
estas foram privilegiadas nas sociedades humanas, no modo de ver as coisas.
No
passado, como ainda em grande parte no presente, outra qualidade, também, comum
aos homens, dominou, e teve um privilégio maior, no modo de ver as coisas: a
CRENÇA.
Era
a norma, a crença, por exemplo, que o funcionamento do mundo, com todos os seus
fenômenos, fosse o fruto de uma vontade quase humana: o mundo e o seu
funcionamento eram frutos da vontade dos deuses.
Deste
modo, para povos antigos, como os gregos, os raios e trovões eram resultados da
ira dos deuses, assim como as tempestades; as erupções de vulcões; ou a
calmaria dos mares, etc.
Todos
os fenômenos naturais eram explicados por meio de tais vontades, por meio de
uma tradição e autoridade de alguns, que se diziam como intérpretes de tais
vontades, e que, por isso mesmo, ninguém poderia contestá-los.
Porém,
vozes surgiram nessa época que discordaram de tais idéias, e que em detrimento
da CRENÇA, botaram a inteligência, a razão, em primeiro plano, como modo de
interpretar e conhecer o mundo.
Estes
primeiros pensadores, ou cientistas, com base nos conhecimentos adquiridos de
outros povos, como os egípcios, que eram capazes de preverem por meio da
matemática eclipses do sol, perceberam que o sol, que nesta época era visto
como um deus, não existia, ao contrário do que era dito na época, à sua bel
vontade, mas, sim, seguia regras que se repetiam com freqüência, e que podiam,
por meio do conhecimento matemático, ser calculada.
Conta-se,
por exemplo, que o matemático grego Tales de Mileto, cinco séculos antes de
Cristo, assombrou seus contemporâneos ao prever o eclipse solar com tal
precisão que, para tal povo, parecia ser inconcebível que um simples mortal
fosse capaz de tal feito. O que motivou a muitos verem nisso um ato divino,
levando, por sua vez, certamente, a verem em Tales um deus, ou como alguém que
possuísse poder divino.
Logo,
passaram também a interpretar outros seres e fenômenos matematicamente,
descobrindo, pouco a pouco, que estes também obedeciam a determinadas regras
físicas e matemáticas. Por fim, descobriram que o próprio pensamento possui
suas regras, as chamadas regras lógicas.
Foi
justamente neste momento que a ciência surgiu, quando os homens perceberam que
a natureza, ao contrário do que era dito, obedecia a certas regras, que
poderiam ser descobertas, e que graças a essas o mundo funcionaria. Regras que,
diferentemente das CRENÇAS, são independentes de vontades, tradição,
autoridade, religião, moral, opiniões, etc. Eis aí, a grande diferença entre
CRENÇA e CONHECIMENTO.
Isto
foi uma verdadeira revolução para aqueles que buscavam a verdade, pois como foi
dito, pela primeira vez a idéia de verdade, tornou-se independente da mera
opinião humana, limitada à determinado lugar e tempo.
Antes,
quando alguém falava sobre a idéia de verdade, esta idéia tinha sempre como
base alguma religião, sentimento, tradição, autoridade,... enfim, alguma
crença. O que causava infinitas disputas, já que cada qual achava que sua
religião, seu sentimento, sua crença era a única verdadeira, e isto fazia com
que a verdade não pudesse ser universal.
Porém,
com o advento da ciência, baseada em leis físicas necessárias e universais,
isto é, leis físicas que sempre são as mesmas em todo lugar e em todos os tempos,
pôde-se pensar em uma verdade universal, que todos os homens poderiam
aceitar.
Esta
nova forma de pensar, ao contrário da antiga, tornou-se, não apenas, tão eficaz
na interpretação do mundo, como útil à vida humana, já que o homem percebeu,
também, que CONHECER É PODER. Poder de,
conhecendo as leis da natureza, o modo como as coisas funcionam, usar tais leis
para o benefício do homem, e assim dando ao ser humano um tempo de vida
extremamente longo, se comparado com o antigo; curando, ou amenizando, todos os
males físicos, etc.
Hoje,
tem-se um conforto, dado ao homem comum, que mesmo os mais poderosos reis
antigos não possuíam.
VERDADE
E RELIGIÃO
Se
a ciência é o ápice do CONHECIMENTO humano, a religião, por outro lado, o é da
CRENÇA.
Fica
difícil, por exemplo, dissociar a religião de sua base emocional, que é em
grande parte inconsciente e irracional.
Muitos,
por exemplo, estão prontos a abraçar qualquer crença que lhes dê certo conforto
emocional, que lhes possa amenizar o medo da morte, do desconhecido, da
solidão, da total falta de sentido da vida, ou da morte de entes queridos, sem
ter a mínima preocupação em saber se é verdadeira, pois o que lhes interessa em
primeiro lugar é o conforto obtido. Tanto que muitas vezes estes reagem com
VIOLÊNCIA àqueles que lhes tentam alertar sobre o perigo de sua falta de
critério de verdade, como se quisessem manter-se, por livre e espontânea
vontade, em tal erro, ou evitarem demonstrarem a fragilidade de tal crença. O
que explica bem porque muitos, embora tendo um privilegiado intelecto, e
bastante conhecimento, possuem superstições religiosas.
Porém,
sem um critério de verdade, que deve ser necessário e universal, como as leis
físicas, não se pode decidir-se por uma crença verdadeira.
Como,
por exemplo, crer que a religião que se acredita agora é verdadeira em relação
a tantas outras que desapareceram no passado, embora estas sejam contraditórias
entre si?
Todavia,
quando a crença, mesma a adquirida por tradição, quando testadas por critérios
de verdade, e não negadas, por estas, tornam-se, por sua vez, crenças
racionais.
Porém,
quem se entrega a uma crença, simplesmente porque esta lhe faz um bem
psicológico, sem outro atrativo que não seja a verdade, renuncia a esta.
Contudo,
aquele que quer conhecer a verdade deve estar preparado para ela, pois o
verdadeiro, não significa, de modo algum, que este seja reconfortante. A
verdade pode chocar, ofender, traumatizar, como um cadáver putrefato, por isso,
nem todos estão preparados para ela. Mas, certamente, pode libertar as mentes
das falsas aparências daqueles que a conhece.

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